A Exaltação da feminilidade: o amor como transcendência em Rosa Maria Mano - Jandira Zanchi





       A efervescência poética que assola a literatura brasileira tem nos trazido revelações que, por si mesmas, são êxtase. Um conjunto de vozes dispare e heterogêneo, lirismo exacerbado, métricas curtas e reais, boas dosagens de razão e concretismo, metafísicas e sabedorias deitadas ao cumprido da inspiração. O amor, tema que na poesia se eterniza e não questiona, tem tido alguns bons artífices.  Em um tempo que acua a feminilidade, tentando dar-lhe contornos e prognósticos masculinos ou híbridos, para somente assim aceita-la, redimi-la, uma enxurrada, de boa qualidade, de poetas mulheres levanta a bandeira da rebelião no poema: e desnudam desejos, úteros, coração, emocionalidades, totalmente decididas a entrar na arena da razão e da criação vestidas de si mesmas, jamais espelho de seus algozes e/ou amantes.

        Rosa Maria Mano é maiúscula nessa redefinição de poética e abstração. Tímida, hibernada e vulcânica da própria alma, recita, num compasso incansável, a sensualidade feminina, nos ensinando em seus acordes, muitas vezes sublimes, a cor e o espaço do desejo, da introspecção ativa de ventos e terra em que nunca arestas ou percalços ou nódulos ou entraves, não, quando essa altiva militante das nuvens nos alcança, é para abrir a porta da limpidez e ciência do paraíso interior:

UM CHAPÉU PARA USAR À NOITE

Sobre a cabeça uma estrela negra, vinda do norte.
Um barco bordado em filigranas de tom escarlate,
pela primeira vez rasgando meus olhos.

Estarei nas cheias de marés e luas,
na boca do mar, que sorve terras cruentas
e empapa a areia com língua áspera
agressiva, nua e verde.
Uma poeta, pela primeira vez
no mundo dos homens.

Claro, o anjo tem hóspedes, a quem serve, a quem domina, com os quais reza as lendas primevas do inconsciente, da eternidade, pois, queiramos ou não, é somente nos eixos abertos do não tempo que nos reconhecemos e amamos.  No banquete da vida Rosa é larga e latente, redimida de si e do outro, mesmo quando recita o inevitável e sua sombra. Em Silêncio: Em desalinho, vela que se perdeu do barco./Último fôlego do silêncio antes do que não é noite,/não é dia. Fica, entre o Tempo e a ferida./Breve, a lua deitará seu sono sobre meu chapéu,/descolorindo horizontes e telhados.

      Aos poucos vamos entendendo esse misticismo de fusão com a natureza da poeta. Quase que didaticamente em Primavera no ventre:

O sagrado é semente socada no pilão.
Junta-se a palavra, representante de todos os silêncios,
a sombra resgatada, a extraordinária boca de cena.
A curvatura dos oceanos que submergem num céu que sangra
arcanjos que desejam corpo, que anulam asas.


E Rosa, essa mística de lua e trevas e sol e ventre, começa, sem muito aviso, a cantinela de seu muso, um eterno amante, imagem ou verdade, quase que indiferente essa concreticidade, pois é da natureza do ser imerso em comunhão religiosa com os elementos a derivação para o amor, o desejo, esse altar construído no imenso a que se dá forma humana e dedicação. Lá vai nossa remadora em busca de seu alvo. Em Senhor das Águas:  Você não sabe, meu bem. Ainda não./Que meu corpo é um templo, onde uma antiga deusa/ habita e tece eternidades./Você não sabe ainda, que as santas águas que dele correm,/são pra limpar a terra onde piso,/são pra matar a sede de zelo,/pra perfumar somente os pés do meu amado.

      Alguém mais desavisado, menos perspicaz ou mais impressionável, pode imaginar que a poeta é quase ingênua ou alguma devota dos bons fluídos da sensorialidade que nos inunda quando imersos em céu e mar (Rosa vive no litoral), mas, não, entremeadas às declarações de amor e/ou integração cósmica estão as planas e sucintas certezas da terra, da morte, do breu, dos espasmos líquidos da solidão. Rosa sabe, conhece a métrica do tempo e, sábia, também ama o que se desfaz,  a lua que apaga toda individualidade. Não se acanha frente ao vazio, à impiedade do fim. Se entrega e as vezes chame essa morte de amor ou sonho ou desejo, mas, não a evita, pois é poeta, e ama todas as manias e intrigas do destino.

       Modernamente sabemos que ciclos dominam a natureza e também a nós mesmos, pois vivemos mais tempo que nossos ancestrais e podemos amar mais de uma vez, sorrir ou chorar ou aprender ou desejar ou... mais de uma vez. Rosa comemora tais oportunidades, sempre aberta, jamais vexada ou estagnada, sempre ciente de novos e bons destinos:

SALTOS DE VIDRO II

Há uma renovação em tudo, uma virgindade avassaladora.
E toco o dia com medo de enodoar o branco do broto,
do germe que me apresenta
o que, há pouco, ainda não era, mas já havia.
O mundo recém parido pelas águas do Tempo. 



JANDIRA ZANCHI
poeta e ficcionista. Integra o conselho editorial de 
malllarmargens revista de poesia e arte contemporânea.

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